Com o passar dos anos, a pauta antes restrita sobre a discussão da infraestrutura da inteligência artificial tem se espalhado pela sociedade. Se, nos últimos cinco anos, o debate era, sob certo e justo aspecto, quase invisível para a maioria das pessoas, hoje ele povoa as notícias, postagens de influencers e comentários, inclusive no ambiente “real”, nos jantares de família, nas conversas sociais.

Um elemento que vale destacar, para os fins do argumento que pretendo expor aqui, é a discussão específica sobre a “materialidade e a nuvem na economia da IA”. Essa discussão, assim como o debate mais amplo da infraestrutura, não é restrita à economia da inteligência artificial, mas é nela que encontra um ponto de inflexão e crise.

Autores como Kate Crawford (2021), Sasha Luccioni (2026) e outros têm alertado há muito que a metáfora da “nuvem” tem propósitos estratégicos muito claros, e o principal deles é o de ocultar a materialidade da economia digital, notadamente a da inteligência artificial (que leva as consequências danosas, de exploração da natureza e das pessoas, ao seu extremo). 

Do trabalho precarizado de etiquetadores de dados na América Latina, África e demais países do sul global, chegando até a  raiz dos processos extrativos de minérios e terras raras que dão base aos aparatos industriais dos centros de dados (data centers), a nuvem mostra ter peso, concretude e sangue.

Se, como pregam os “evangelizadores da tecnologia”, a nuvem seria um instrumento central de infraestrutura, essencialmente ecológica e com uma “pegada ambiental” leve, abundam exemplos globais denunciando algo completamente diverso. Em verdade, estamos diante de um discurso fantasioso e intencionalmente espectral, que oculta um novo episódio de um processo de colonização, agora digital, que impõe uma nova ordem de senhores e subalternos na economia global – ou, talvez, o reforço da velha ordem sob nova roupagem. 

A denúncia contra a “imaterialidade da IA” é verdadeira. No IP.rec, já analisamos com vagar as mecânicas deste discurso estratégico e o que ele deixa, de maneira deliberada, na opacidade. A luta global, especialmente nos últimos dois anos, tornou isso evidente e disseminou na boca do povo: a IA funciona sobre uma infraestrutura pesada que extrai da natureza e sequer entrega contrapartidas sociais claras. A coisa aqui corre meio que como um “causo” e não como um método: olhando as postagens espetaculares nas redes sociais, de perfis comprometidos com o lobby privado, vemos a reação de pessoas não especializadas denunciando e receosas com os centros de dados.

Os dilemas do consumo energético, da predação de fontes de água que deveriam ser destinadas prioritariamente à população e à produção de riquezas para a sociedade, a emergência de bolhas de calor no entorno destes aparatos, a produção de ruído e infrassom que prejudica fauna, flora e comunidades de entorno – tudo isso está posto e deve se desdobrar a cada dia, com o acúmulo de evidências.

Tendo dito isso, eu gostaria de levar a sério e, dando uma volta, “pegar do outro lado” esse projeto extrativo, colonial e violento: quero falar da superestrutura e como os discursos e ideologias motivam um processo de devastação da natureza e dos territórios.

Faço isso com o intuito de mostrar que não é frívolo discutir o ideário que perpassa o mundo das big techs, dos techbros e como isso mobiliza dinheiro e recursos, corroendo as democracias no planeta,  através de aparatos lobísticos virulentos que, por seu turno, destroem deliberadamente processos de construção de confiança na nossa sociedade.

Se a denúncia da materialidade é necessária e sempre bem-vinda, também é preciso recordar a denúncia sobre o ideário e ele começa com a concepção de imaterialidade da IA como um espelho da imaterialidade da mente, na metáfora da “mente como se fosse um computador” (LAKOFF, JOHNSON, 1999).

Essa ideia está posta no campo da IA desde sua origem e ganhou contornos mais drásticos no processo de desenvolvimento das chamadas “ciências cognitivas”, notadamente na sua primeira geração (chamada computacionalismo). Em minha tese, ainda no prelo, analisei como os autores do campo técnico flertam o tempo todo com essa metáfora – e os juristas daí importam este ideário de maneira acrítica (FERNANDES, 2026).

Eu não quero explorar necessariamente esse tema, pois árido e tomador de longo tempo, mas quero poder afirmar aqui, como postulado, que as pessoas envolvidas com a construção da tecnologia da inteligência artificial acreditam, apesar de dizerem que não, que o que está na “rede neural” está tal qual acontece no cérebro, no emaranhado neuronal; que o que está nos sistemas computacionais está qual acontece na mente e que sistemas complexos, com comportamentos emergentes, são sistemas que existem tal qual existem, como fenômeno, o humano ou o quase humano. 

As palavras são traiçoeiras, revelando a cada passo o que eles tentam desdizer e escapar. Isso é tão verdade que o campo sequer consegue lidar, de maneira séria e científica, com o corpo de metáforas que lançam mão para operacionalizar suas explicações.

O estágio final desse processo virou doce na boca das crianças irresponsáveis, os marketeiros da IA: é a AGI, a inteligência artificial geral e, mais do que ela, a singularidade – e aí todo um campo de ideólogos se desdobra e atravessa o debate: dos mais sérios e comprometidos, como Marvin Minsky, aos desabusados, como Nick Bostrom ou Ray Kurzweil.

E nada mais natural que, por que possam “criar” a mente em computadores, também possam dar o passo além e “criar o vivo” e isso se coligue num verdadeiro abuso argumentativo que sustente: (1) que todo esforço para este caminho é legitimado a priori; (2) que, ao julgarem que a economia da infraestrutura da IA é limpa, leve e “nuvem”, isso seja real. 

Vejam os comparativos com outros campos: o aço, o óleo, o carro, a aviação… todos, sim, pesados. Eles? Leves, como a nuvem e a mente.

Vão além: afinal, mesmo o humano é mais pesado do que a IA, esta, mero software – e aí os reprodutores vão cometer um erro crasso, banal mesmo, de sustentar que há “espírito no software, cujo corpo é o hardware”. E aí que é menos intensivo, do ponto de vista energético, treinar um grande modelo, como o ChatGPT, do que aquilo que um ser humano gasta para aprender algo

Assusta perceber como os argumentos se alastram, delirantes. Entretanto, eles têm sistema e propósito político. Gebru e Torres (2024) chegam a dar um nome para esse emaranhado misterioso, fantasmático e espectral de ideologias subjacentes: “TESCREAL” – Transhumanism, Extropianism, Singularitarianism, Cosmism, Rationalists, Effective Altruism, and Longtermism.

Para os “evangelizadores” deste emaranhado há um roteiro teleológico claro: (i) reduzir “inteligência” a desempenho verificável (o Turing robusto como crivo de humanidade funcional), (ii) identificar o algoritmo decisivo no reconhecimento hierárquico de padrões (engenharia reversa do neocórtex) e (iii) prometer a fusão homem-máquina como culminância política e ontológica do progresso técnico.

A promessa do controle do humano, sua superação e recriação como máquina – pelos Overlords da IA – é motor a mobilizar ações muito concretas e que são perdidas de vista também pelos que, justamente, denunciam a materialidade da IA. A ideologia, nesse caso, não é mera perfumaria, ela orquestra uma visão de mundo, da forma de conhecer e do que é possível fazer para ser humano e controlar o além-humano.

Se o objetivo é divino, e se se acredita que o Santo Graal do controle absoluto está muito perto, então passa-se a ser possível discutir “um preço a pagar”. Para mentirosos compulsivos, de uma ética muito volátil e ansiosos por ter um império (HAO, 2025) para chamar de seu, esse preço ser a destruição da sociedade democrática e do equilíbrio ecológico é bastante razoável.

O papo aqui é sobre business e money, mas é também sobre ideias que se vendem, duplipensantes, ao mesmo tempo verdade e mentira, crença e marketing, tornando a vida de todos nós, a cada dia, um pouco mais miserável.

 

REFERÊNCIAS

 

CRAWFORD, Kate. Atlas of AI: power, politics, and the planetary costs of artificial intelligence. New Haven: Yale University Press, 2021. 

FERNANDES, André Lucas. A tensão entre o conceito técnico de “inteligência artificial” e o conceito jurídico de “pessoa” : perspectivas a partir da história dos conceitos e das ciências cognitivas / André Lucas Fernandes, 2026.

GEBRU, Timnit; TORRES, Émile Phil. (2024). The TESCREAL bundle: Eugenics and the promise of utopia through artificial general intelligence. First Monday. v. 29, n. 4. https://doi.org/10.5210/fm.v29i4.13636. 

HAO, Karen. Empire of AI: Dreams and Nightmares in Sam Altman’s OpenAI. New York: Penguin Press, 2025.

LAMBERT, Katherine; LUCCIONI, Sasha. From cradle to cloud: a life cycle review of AI’s environmental footprint. arXiv, 2026. DOI: https://doi.org/10.48550/arXiv.2605.05416  

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to western thought. New York: Basic Books, 1999.

Imagem destaque: Gloria Mendoza / betterimagesofai.org / creativecommons.org/licenses/by/4.0/

André Fernandes

Diretor e fundador do IP.rec, é graduado e mestre em Direito pela UFPE, linha teoria da decisão jurídica. Doutorando pela UNICAP, na linha de tecnologia e direito. Professor Universitário. Membro de grupos de especialistas: na Internet Society, o Grupo de Trabalho sobre Responsabilidade de Intermediários; no Governo Federal, Grupo de Especialista da Estratégia Brasileira de IA (EBIA, Eixo 2, Governança). Fundador e Ex-Conselheiro no Youth Observatory, Internet Society. Ex-Presidente e Fundador da Comissão de Direito da Tecnologia e da Informação (CDTI) da OAB/PE. Alumni da Escola de Governança da Internet do CGI.br (2016). No IP.rec, atua principalmente nas áreas de Responsabilidade Civil de Intermediários, Automação do Trabalho e Inteligência Artificial e Multissetorialismo.

Compartilhe

Posts relacionados