Recife tem a fama de ser a cidade que acredita em boatos. Há vários episódios de pânico e caos social na história recente da cidade. O maior deles, que na verdade conseguiu provocar o caos por duas vezes, foi o já famoso “Tapacurá estourou”. Tapacurá, para os que não sabem, é uma barragem localizada no município de São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife. Em julho de 1975, Recife passava por um momento de reconstrução, pois as fortes chuvas dos dias 17 e 18 daquele mês causaram enchentes e destruição severa do tecido urbano. No dia 21 de julho de 1975, em meio à tentativa de salvar o que não havia sido destruído pela água, alguém, até hoje desconhecido, propagou o boato de que a barragem de Tapacurá havia rompido e que a água se dirigia com força à cidade do Recife.

Nessa época, muito antes da Internet e das redes sociais, o boato causou muitos estragos e provocou cenas dignas de filme de catástrofes:

“‘Tapacurá estourou!’ O alarme anônimo provocou pânico em toda a cidade e o Recife enlouqueceu. O grito ecoou de boca em boca, começou a correria de um lado para outro em busca dos parentes e amigos para fugirem ou morrerem juntos. Motoristas gritavam para os pedestres: “Fujam! A barragem estourou!” Algumas pessoas corriam no sentido cidade-subúrbio, outros no sentido subúrbio-cidade. Uns subiam em árvores, outros subiam até os últimos andares de edifícios, grande parte simplesmente abandonava os postos de serviços em comércio, escritórios e até bancos. Lojas, colégios e repartições públicas ficaram vazias.

A rua do Hospício virou realmente um verdadeiro hospício. Filas de ônibus desmanchavam-se. Homens e mulheres abandonavam o posto da Previdência Social, onde aguardavam atendimento e, ainda com cartões de identificação nas mãos, atropelavam-se nas escadarias dos edifícios próximos na tentativa de encontrar um lugar seguro.

Carros trafegavam em velocidade na contramão. Ônibus eram invadidos fora das paradas por aflitos fugitivos, ao mesmo tempo em que passageiros apavorados saltavam pelas janelas. Mulheres em pleno ataque de nervos gritavam de mãos estendidas para o alto. ‘Salve-se quem puder!’.” (ANDRADE, 2006)

As pessoas só foram acalmadas quando o governador de Pernambuco na época, Moura Cavalcanti, dirigiu-se publicamente à população firmando que tudo não passava de um boato.

Em 2011, após alguns dias de caos social provocado, entre outras coisas, por fortes chuvas e greve da polícia, o boato de Tapacurá foi revivido. Este eu tive a oportunidade de vivenciar, e, apesar de os mais velhos dizerem que a intensidade não se comparava à de 1975, houve uma balbúrdia que resultou em empresas liberando seus empregados mais cedo, levando o trânsito a se complicar no meio da tarde, quando todos tentavam retornar às suas casas. O medo era que, com a confluência de fortes chuvas, maré alta e as supostas águas advindas de Tapacurá, ao mesmo tempo, o Recife não suportaria.

O fato é que o recifense é muito propenso a acreditar em boatos, hoje conhecidos e alcunhados como “fake news”. Só quem mora ou já morou na cidade sabe a força que tem um boato na vida do recifense.

Este fim de semana não foi diferente. Uma rede de postos de gasolina publicou uma imagem nas redes sociais em que alertava para uma possível nova greve de caminhoneiros que provocaria mais um desabastecimento de combustíveis na cidade. Em poucas horas, mesmo após o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Pernambuco (Sindicombustíveis-PE) ter afirmado desconhecer o fato, os recifenses lotaram os postos de gasolina, provocando filas somente vistas durante a greve de caminhoneiros ocorrida em maio deste ano. O presidente do Sindicombustíveis disse, ainda, que áudios que circularam no WhatsApp durante a greve estariam, agora, sendo “requentados”, provocando ainda mais desespero na população.

Post no Instagram feito no perfil da rede de postos de combustível Petro Mega.

Uma breve busca no Twitter pela expressão “Tapacurá” mostra como resultados alguns tweets datados de 01 e 02 de setembro que demonstram a fama de Recife de acreditar em boatos:

Tweets falando sobre os boatos em Recife.

Apesar do recente clamor em torno da expressão fake news, sabe-se que rumores, boatos e teorias da conspiração existem desde que o mundo é mundo. O problema é que, com o mundo cada vez mais conectado digitalmente, a complexidade e a escala de difusão de uma notícia falsa se apresenta como um verdadeiro desafio da atualidade.

“Dependendo de a quem você pergunta, notícias falsas são tidas por representar uma mudança na guerra de informação; uma forma emergente de especulação cínica; um motor para energizar a direita alternativa e outras mobilizações políticas baseadas em mediação digital ao redor do mundo; um grito de guerra partidário de um novo “Ministério da verdade” liberal; um subproduto indesejado das plataformas online que organizam nossas sociedades digitais; ou a sinalização de um colapso do consenso em torno das instituições e processos de produção de conhecimento estabelecidos, anunciando uma nova era “pós-verdade” na política e na vida pública.” (“A Field Guide to “Fake News” and Other Information Disorders” — tradução nossa)

Recente relatório do Council of Europe chama de “desordem informacional” o conjunto de informações falsas ou com potencial danoso (em inglês, mis-information, dis-information e mal-information). O referido relatório conceitua os termos da seguinte forma:

  • Dis-information: informação falsa e criada com o propósito de causar mal a uma pessoa, grupo social, organização ou país;
  • Mis-information: informação falsa mas não criada com o propósito de causar dano;
  • Mal-information: informação baseada na realidade, utilizada para infligir dano em uma pessoa, organização ou país.

De acordo com Pierre Levy (1999) [1], a característica inclusiva da Internet, somada ao caráter simultâneo e à ampliação do alcance no mundo globalizado causou um efeito inédito na história da humanidade: a capacidade de qualquer pessoa tornar-se um formador de opinião em potencial. As redes sociais, por sua vez, potencializam essa voz que, em princípio, seria pessoal, e são, por isso mesmo, a origem desse tipo de sujeito, capaz de enunciar ideias, discursos e imagens. Nesse sentido, as redes sociais atuam como difusores capazes de atingir uma enorme quantidade de pessoas e influenciar eventos como eleições presidenciais, como visto recentemente no caso dos Estados Unidos.

Foi o que ocorreu no presente caso, ou seja, a rede de postos de combustível que iniciou o boato se utilizou das ferramentas disponíveis na Internet para atingir toda uma população. Assim sendo, o espalhamento do boato sobre o novo desabastecimento dos postos de combustível, iniciado pela rede de postos acima referida, se enquadraria na primeira categoria, uma desinformação: a criação de um informação falsa com a finalidade de causar um mal a um grupo social, no caso, os proprietários de carro da cidade do Recife.

Dá-se que, atualmente, vivemos na chamada era da “pós verdade”, eleita a palavra do ano de 2016 pela Oxford Dictionaries, que a definiu como um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. A prática da “pós verdade”, entendida como o uso de mentiras ou distorções da verdade para influenciar o debate político, ou, nos termos do relatório do Council of Europe, da desordem informacional, tem sido vista como a definidora dos processos eleitorais do presidente americano Donald Trump e da saída do Reino Unido da União Europeia, o famoso “Brexit”.

Muitos analistas políticos culpam o Facebook e a caixa-preta que são os algoritmos de difusão de informações da rede social pelo espraiamento dessa desordem informacional em ambos os processos eleitorais, pois, assim, elas puderam ter alcance e legitimidade na sua transmissão. O jornalista britânico Matthew D’Ancona, em seu livro “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news” [2], afirma que há um colapso da confiança nas fontes tradicionais de autoridade e informação, o que abre espaço para a ascensão de uma indústria da desinformação, que se utiliza de notícias falsas (fake news) para cumprir quaisquer que sejam seus objetivos. Segundo ele, ainda, esse colapso da confiança é a base social da era da pós verdade, de forma que todo o resto flui a partir desta fonte. Na pós verdade, portanto, as emoções e convicções pessoais passam a importar mais que os fatos, principalmente quando nos referimos a escolhas políticas.

Como as redes sociais se colocam atualmente como grandes difusoras de informação, de forma que não há mais uma necessidade premente de se utilizar de veículos tradicionais de mídia para tanto, qualquer pessoa ou instituição se torna uma potencial propagadora de informações inverídicas, atrelada a uma agenda própria ou de terceiro. Ou seja, qualquer que seja o intento, basta um simples post nas redes sociais para que a viralização aconteça. E mesmo que posteriormente a informação seja negada ou taxada como falsa pelas instituições públicas ou veículos de mídia tradicional, como no caso aqui em comento, o estrago já está feito e as pessoas já escolheram acreditar na primeira versão.

E como tudo isso se relaciona com a boataria do nosso país Recife? Ora, o que em qualquer lugar normal seria visto como mera especulação, e que aguardaria a confirmação por parte das instituições públicas, aqui é tido como verdade absoluta, a ponto de provocar desespero geral nas pessoas e desencadear uma onda de caos. E a cidade gosta tanto de boatos que a imprensa local chegou a divulgar que Pernambuco foi o único estado onde ocorreram filas nos postos de gasolina esse final de semana, mas até isso se mostrou falso. Parece que o pessoal do Twitter está certo: a falta de gasolina é o novo “Tapacurá estourou”.

Referências:

[1] LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

[2] D’ANCONA, Matthew. Pós verdade. Barueri: Faro Editorial, 2018.

Raquel Saraiva

Presidenta e fundadora do IP.rec, é também graduada em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco e mestra e doutoranda em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Pernambuco. Alumni da Escola de Governança da Internet do CGI.br (2017). No IP.rec, atua principalmente nas áreas de Algoritmos e Inteligência Artificial, Privacidade e Vigilância e Tecnologias de Realidade Virtual e Aumentada, mas também se interessa pelas discussões sobre gênero e tecnologia.

Compartilhe

Posts relacionados