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“O mundo não mudou — mas a forma como você o experimenta, sim.” É assim que a Meta divulga os novos óculos com IA em parceria com grandes marcas como Ray-Ban e Oakley. Sob a promessa de otimização da produtividade do usuário, o dispositivo apresenta uma pequena câmera que permite a captura de imagens em primeira pessoa, formato conhecido em inglês como point of view (POV), isto é, ponto de vista. Os óculos são um tipo de dispositivo vestível (wearable devices) e trazem recursos como assistente de voz, conexão Bluetooth, integração com Instagram e Facebook, traduções em tempo real até reconhecimento facial (META, 2026).
Segundo a empresa, o acessório também tem potencial para melhorar o desempenho esportivo e empoderar pessoas com deficiência visual através de chamadas mãos-livres e o assistente de voz que pode ser acionado para descrever os arredores, conectando o usuário a voluntários para assistência em tempo real (META, 2026). Neste ano, a Meta anunciou o programa de distribuição de óculos Ray-Ban Meta com IA para 130.000 veteranos cegos nos EUA e, embora haja benefícios reais para pessoas com deficiência, existem riscos relacionados ao uso abusivo desse tipo de tecnologia que não devem ser ofuscados pelas estratégias comerciais da empresa.
O marketing da Meta também busca personalidades femininas famosas ligadas a marcas e lifestyle de luxo. Nos Estados Unidos, a influencer Kylie Jenner, com mais de 380 milhões de seguidores no Instagram, foi escolhida como rosto da campanha publicitária, enquanto no Brasil, Bruna Marquezine é embaixadora da Ray-Ban e compartilhou em seu Instagram uma foto utilizando os óculos com a legenda “vendo o futuro através de lentes diferentes”.
O produto, portanto, é vendido como uma tecnologia avançada a ser incorporada na vida cotidiana, com foco no aumento da performance pessoal e profissional. O discurso em torno dos óculos com IA da Meta envolve não só a fetichização do dispositivo, como também uma ideia de futuro na qual a experiência de navegar no mundo é intermediada por tecnologias “inteligentes”.
O dispositivo chegou ao Brasil em 2025 e já está no centro do debate regulatório sobre vigilância, privacidade e proteção de dados. Em agosto de 2026, o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e a Coding Rights formalizaram denúncia junto à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e ao Ministério Público Federal (MPF) para apurar riscos e violações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), ao Código de Defesa do Consumidor (CDC), além de possíveis violações aos direitos da mulheres, crianças e adolescentes (CODING RIGHTS, 2026). Em ofício, as entidades apontam que o tratamento de dados não é realizado localmente, ou seja, as informações são enviadas aos servidores da Meta (CODING RIGHTS, 2026).
A denúncia se soma ao movimento internacional de entidades da sociedade civil e órgãos reguladores para investigar os riscos e usos abusivos dos óculos com IA da Meta. Em 2026, a apuração dos jornais suecos Svenska Dagbladet (SvD) e Goteborgs-Posten (GP) revelou que vídeos íntimos gravados por usuários do óculos de IA são revistos por uma empresa subcontratada da Meta sediado no Quênia (BBC, 2026). Segundo a matéria, esses trabalhadores manuais são chamados de anotadores de dados e têm como atribuição revisar e rotular os dados com o objetivo de treinar os modelos de inteligência artificial.
Com base na investigação, a autoridade de proteção de dados do Reino Unido, Information Commissioner’s Office (ICO), enviou relatório para a Meta a fim de apurar como trabalhadores subcontratados da empresa têm acesso ao conteúdo sensível filmado pelos óculos inteligentes com IA da empresa (BBC, 2026).
Nos Estados Unidos, a Meta também foi alvo de uma ação coletiva na Califórnia em razão dos riscos e violações ao direito à privacidade. Ao mesmo tempo, crescem os casos e relatos de assédio, constrangimento, gravação e divulgação de imagens íntimas não consensuais, especialmente nos Estados Unidos e em países europeus. Em junho deste ano, a emissora belga RTBF investigou casos de mulheres em Bruxelas que foram abordadas e filmadas secretamente em espaços públicos por homens utilizando os óculos Ray-Ban da Meta (THE BRUSSELS TIME, 2026).
No Brasil, um médico foi preso suspeito de usar um óculos com câmera embutida para filmar uma paciente durante exame ginecológico em clínica particular em Salvador, na Bahia. Segundo o portal g1, após desconfiar do uso dos óculos escuros pelo médico, a paciente começou a gravar a consulta pelo celular. Quando confrontado pela polícia, o ginecologista afirmou que as imagens eram para “fins de pesquisa” (G1, 2026).
O discurso comercial que reduz os óculos com IA a um acessório “inteligente” mascara os riscos do uso do dispositivo e serve à descentralização das práticas de vigilância e controle.
A ausência de sinais claros e inequívocos que indiquem a gravação possibilita usos abusivos da tecnologia, engendrando um continuum de vigilância baseado na coleta massiva de dados. Conforme divulgado pela Meta, os óculos somente acionam uma “pequena” luz de LED para indicar que a câmera está ligada [1], porém, ela pode ser facilmente ocultada por uma fita adesiva ou desativada com ajuda de uma solda, por exemplo.
A Meta também disponibilizou o Wearable Device Access Toolkit, um kit de ferramentas para desenvolvedores criarem aplicativos para os óculos inteligentes. Embora a empresa tenha declarado que aprimorou a detecção de adulteração da luz de LED (GIBBS, 2026), o alcance e os limites do software ainda não foram esclarecidos: seria possível que o desenvolvedor criasse um aplicativo que desative a luz de LED ou altere outros tipos de sinais, se houver?
Nesse cenário, não há meios razoáveis para fiscalizar a legitimidade do uso, tampouco identificar o autor. Na prática, a furtividade intencional e característica do design dos óculos permite que qualquer pessoa drible o consentimento de terceiros, grave e compartilhe imagens e vídeos on-line.
Diante dos riscos iminentes, diversos países adotaram medidas para regular ou banir o dispositivo, de modo que a Meta recuou com o modelo de óculos com câmera embutida, anunciando um novo modelo. Em setembro deste ano, a empresa apresentou os primeiros óculos inteligentes sem câmara, chamado de “audio glasses”, no evento Meta Connect na Califórnia, nos EUA (O GLOBO, 2026). Os novos óculos de áudio foram desenvolvidos em parceria com a EssilorLuxottica e, segundo a empresa, o áudio é o recurso mais popular entre os usuários.
No entanto, isso não significa que os óculos com IA e câmera embutida foram retirados de circulação. Pelo contrário, a Meta introduziu os óculos Ray-Ban Meta Gen 3 com câmeras nos modelos Wayfarer, Aviator e Zena. Com efeito, trata-se de uma estratégia comercial para avançar no mercado global de dispositivos vestíveis, inclusive desenvolvendo uma alternativa supostamente menos invasiva aos óculos com câmeras.
O anúncio dos óculos de áudio deve ser compreendido como uma resposta da empresa aos esforços das autoridades regulatórias. Na tentativa de amenizar os os impactos à privacidade, à proteção de dados e à segurança, os óculos de áudio não apresentam câmeras, o que permitiria “criar a armação mais fina e leve já produzida pela marca” (O GLOBO, 2026) e tornar os óculos “inteligentes” cada vez mais semelhantes aos óculos tradicionais.
Zuckerberg também anunciou que os óculos passaram a ter processamento privado de dados, buscando atender às preocupações levantadas sobre o envio de dados para servidores em nuvem. Porém, os riscos permanecem e até se intensificam.
O novo modelo sem câmera mantém o design furtivo e, ao contrário dos óculos com câmera, não apresenta uma luz de LED que sinalize quando a gravação está sendo realizada (BARROS, 2026). Considerando que o dispositivo é capaz de capturar o áudio do ambiente por meio dos microfones, é possível que gravações sejam feitas sem consentimento ou autorização.
A decisão pela remoção da câmera não torna o produto necessariamente mais seguro, tampouco é suficiente para combater os usos abusivos dessa tecnologia, potencializados pela maior escalabilidade e conectividade inerente ao dispositivo.
Assim, é fundamental que o debate regulatório seja ampliado para além dos óculos “inteligentes” com câmera e inclua outros tipos de dispositivos vestíveis que aprofundam a vigilância em massa e a erosão da privacidade. O foco também não deve ser restrito à Meta: a Google também lançou seu modelo de óculos inteligentes em parceria com a Samsung e marcas de eyewear como a coreana Gentle Monster (GENTLE MONSTER, 2026) e a Warby Parker (SAMSUNG NEWSROOM U.S., 2026).
Os últimos lançamentos da Meta demonstram a resiliência das empresas de tecnologia, que dispõem de capital para se adaptar continuamente às exigências normativas e desenvolver ou reformular tecnologias a partir dos frameworks regulatórios. A regulação dos óculos com IA e de outros dispositivos vestíveis exige um debate altamente qualificado e técnico sobre o design e os recursos desses produtos, que reúna sociedade civil, agentes reguladores e empresas do setor.
Considerando que esse problema envolve múltiplas camadas, o IP.rec está lançando uma série de textos sobre essa questão, intitulada: “O que os olhos não veem, a gente consente? Vigilância, privacidade e dispositivos vestíveis”. A série será composta por mais quatro publicações, em que buscaremos analisar, de forma mais aprofundada, as implicações sociais, jurídicas e éticas no desenvolvimento desse tipo de tecnologia, sobretudo no que diz respeito aos óculos com IA.
Esses dilemas envolvem questões relacionadas à privacidade e ao consentimento, às estratégias de marketing e às escolhas de design, ao processo de fetichização desses produtos como artigos de luxo e, principalmente, às consequências de sua utilização para pessoas que podem se tornar ainda mais vulneráveis diante desses novos dispositivos.
Sem o intuito de esgotar a discussão, as publicações têm como objetivo aprofundar algumas das principais questões identificadas, ao longo das discussões realizadas durante o segundo semestre de 2026, pelo Grupo de Pesquisa em Gênero e Tecnologia do Instituto, bem como registrar as inquietações que emergiram desse processo. Mais do que oferecer respostas definitivas, a proposta dessa série é compartilhar reflexões e tensionamentos que atravessaram o grupo e, a partir deles, convidar as leitoras e os leitores a também refletirem e participarem desse debate.
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[1] Segundo o site da Meta, “Ray-Ban Meta and Oakley Meta are equipped with a 12MP camera that captures sharp photos and records 1080p or 3K video from your perspective. When you’re recording, a tiny LED lights up to indicate to others that the camera is on.” (grifo nosso). Disponível em: https://www.meta.com/br/en/ai-glasses/learn/guide-shooting-pov/. Acesso em: 15 set. 2026.
Referências
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G1 BAHIA. Ginecologista é preso suspeito de usar óculos com câmera para filmar paciente durante consulta em Salvador. G1 Bahia, 10 jul. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/07/10/homem-e-preso-em-salvador.ghtm. Acesso em: 21 set. 2026.
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Imagem destacada: Hanna Barakat & Cambridge Diversity Fund / https://betterimagesofai.org / https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
Hana Mesquita
Hana Mesquita é advogada graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Nepp-DH/UFRJ). Tem experiência em organizações da sociedade civil nas áreas de direitos digitais e proteção de dados, com ênfase nas intersecções entre tecnologia, gênero e direitos humanos. Sua pesquisa atual investiga gênero, governança reprodutiva e vigilância, articulando sua trajetória acadêmica e profissional no campo.