Desinformação

substantivo feminino

  • 1.
    ação ou efeito de desinformar.
  • 2.
    informação falsa, dada no propósito de confundir ou induzir a erro.

No último domingo, 29, uma nova-velha estratégia de desinformação foi implantada e disseminada na rede: a de que mortes por acidentes estavam sendo reportadas como mortes por coronavírus. Nova, pois aborda questões atuais de saúde – e o assunto em pauta no Brasil e no mundo, a pandemia por coronavírus que atinge o planeta – ao mesmo tempo que velha, uma velha tentativa de maquiar dados através da boataria online, das correntes de WhatsApp e da produção de memes em massa nas redes sociais.

A desinformação disseminada nas redes vem alcançando patamares mais perigosos e sensíveis – visto que afeta a própria saúde física das pessoas que a recebem – se expandindo e se concretizando em meio a uma situação já incerta, inédita e de verdadeira crise mundial. Assim, os tempos de coronavírus se revelam um cenário ideal para a propagação da desinformação, para o crescimento de um desespero coletivo (e digital), para a crença nas notícias encaminhadas, compartilhadas e lidas nas redes sociais – ora por esperança de cura, de vacina ou de remédios (e consequentemente a esperança de que dias melhores virão), ora amarrada por interesses políticos e econômicos.

Através desta, o Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife – IP.Rec atenta para a crescente necessidade de promover o direito fundamental à informação, tanto por seu valor em si considerado, quanto por seus benefícios na promoção da saúde em meio à pandemia.  Nesse sentido, repudiamos os reiterados posicionamentos de informações falsas ou duvidosas por parte do Presidente da República, o qual conclama a população a sair às ruas e falta com a responsabilidade exigida pelo cargo de Chefe de Estado ao promover desinformação, assim representando uma ameaça à saúde dos brasileiros. O IP.rec afirma, ainda, que segue as recomendações dos órgãos de saúde e da OMS – Organização Mundial de Saúde, bem como frisa ser necessário redobrar os cuidados acerca da fonte das informações consumidas e repassadas através das plataformas online – plataformas estas que permitem um fluxo contínuo de troca de informações mas muitas vezes o fazem na ausência de uma checagem de fatos – às vezes funcionando apenas como uma “caça por cliques” ou como resposta a uma crise do jornalismo tradicional.

O IP.rec reitera a importância da checagem de informações veiculadas. Especialmente por estarmos vivendo um período delicado, no qual o fluxo contínuo de informações da Internet impacta desde ações do dia a dia ao bem estar das pessoas, a verificação de conteúdo se mostra ainda mais crucial.

Como se proteger e evitar a propagação de materiais duvidosos num momento em que a desinformação chega ao patamar de desacreditar o atual número de vítimas da pandemia de coronavírus? Apresentamos, a seguir, boas práticas no combate à desinformação:

 

  1. Na dúvida, não compartilhe. A tendência de qualquer pessoa que queira proteger amigos e familiares é avisar tudo o que sabe, “por via das dúvidas”. No entanto, essa atitude pode ser mais danosa do que benéfica, pois facilita a disseminação de notícias falsas, golpes, vírus ou mensagens alarmantes com o mero intuito de causar medo e ansiedade diante da situação. Por isso, é muito importante checar a credibilidade de tudo antes de compartilhar, inclusive daquela mensagem que você recebeu da prima do amigo da amiga – confiar na mensagem apenas porque confia na pessoa é, aliás, um grande propulsor de notícias falsas (mais sobre aqui).
  2. Use estratégias de checagem de fatos. Para além de outros cuidados, uma opção rápida é considerar iniciativas de apuração de notícias. Alguns dos portais de notícias de maior alcance reúnem grupos de jornalistas para averiguar conteúdos suspeitos compartilhados. Em relação ao coronavírus, especificamente, times de comunicação da Organização Mundial da Saúde trabalham 24 horas por dia analisando e respondendo aos principais rumores sobre o vírus que podem afetar a saúde pública, como falsas promessas de prevenção ou cura. Informações baseadas em evidência da OMS estão disponíveis em seu website e redes sociais (incluindo WhatsApp, Twitter, Facebook, Instagram, LinkedIn, Pinterest, em inglês; português, Twitter, Facebook, site oficial).
  3. Desconfie de títulos escandalosos. Para não cair em mensagens enganosas, o primeiro passo é saber identificá-las. Informações suspeitas têm o único propósito de se espalhar, e por isso usam as mais diversas técnicas para chamar a atenção, sendo a primeira delas o título. Muitas vezes, a chamada não corresponde ao texto ou distorce o conteúdo abordado. O mesmo cuidado com o título vale para a data de publicação: algumas vezes, notícias antigas voltam a ser compartilhadas depois de muito tempo e geram confusão.
  4. Pense antes de clicar. Seu clique tem valor econômico, e há muitos agentes que farão de tudo para conseguir sua atenção para usos maliciosos. O apelo vai desde senso de urgência a dados muito alarmantes não vistos em nenhum outro lugar. Preste atenção à abordagem utilizada e também ao nome dos sites, pois outra técnica comum é o uso de nomes similares aos de fontes jornalísticas.
  5. Verifique a fonte: desconfie de informações sem dados oficiais ou que não vieram de uma autoridade sobre o tema. Nunca ouviu falar da instituição que divulgou os resultados? Não consegue achar a mesma notícia em nenhum outro lugar? Hoje em dia, é improvável que os principais veículos de informação deixem escapar informações relevantes no Brasil e no mundo. Se estiver na dúvida, use mecanismos de busca para encontrar mais fontes sobre o tema.
  6. Duvide de informações sem referências. Informações são produzidas por pessoas em contextos específicos – isto é, há sempre autor ou veículo de comunicação, data, fontes. Sempre verifique a procedência das mensagens, fotos e vídeos que recebe – vale perguntar a quem enviou ou procurar na internet.
  7. Cuidado com falsa pretensão científica. Na mesma linha do ponto anterior, é também importante checar fontes que parecem científicas. Um problema que vem crescendo na pandemia de coronavírus é que, por tentarem entender mais a situação, muitas pessoas terminam por espalhar e confiar em informações apenas porque contêm palavras que se referem ao mundo acadêmico – do tipo “um estudo provou que”, “a ciência comprova que”. Não é preciso que todos saibam os pormenores de métodos de pesquisa, mas é suficiente entender que “ciência” não é uma entidade homogênea que contém verdades puras, mas sim um conjunto de pessoas que tentam explicar um pouco mais sobre determinado fenômeno – e que discordam, também. Por isso, dificilmente um estudo confiável usará palavras como “prova”. Do mesmo jeito, “ciência” tem nome e sobrenome – estudo tal, da universidade tal, conduzido por pessoa tal, concluiu tal.
  8. Denuncie. Muitas plataformas oferecem suporte para denúncia de conteúdos desinformativos ou abusivos. Não se cale! Se você se deparou com algo que sabe ser falso, avise a portais de notícias que podem divulgar a checagem dos fatos e beneficiar um número maior de pessoas. Além disso, não se esqueça de avisar a quem lhe repassou a mensagem inverídica que seu conteúdo é falso, e oriente essa pessoa sobre como identificar esse tipo de material e os riscos que ele representa.
  9. Use os recursos de verificação das redes sociais. As próprias redes sociais dispõem de recursos para facilitar a checagem de informações e fontes. Em mensagens encaminhadas, preste atenção ao número de vezes que foram compartilhadas (no WhatsApp, por exemplo, duas setas indicam que uma mensagem foi encaminhada várias vezes). Em contas como Facebook, Twitter e Instagram, veja se o perfil possui um símbolo de verificação de contas ao lado do nome. Caso necessário, procure opções de denúncia de conteúdo.
  10. Faça sua parte. Combater a desinformação não é somente cuidar de si, mas também dos demais. Tão importante quanto não se deixar afetar por conteúdo enganoso é não ser um vetor de transmissão de notícias falsas e compreender o risco que elas representam. Procure manter o senso crítico em relação ao conteúdo que consome. Sempre que perceber que pode ajudar, oriente familiares e amigos sobre como evitar a desinformação – algumas medidas simples e aparentemente pequenas podem ter um impacto positivo enorme. E se, mesmo após toda a checagem de informações, ainda restar alguma dúvida, basta voltar ao ponto 1.

 

Estamos cientes de que o combate à desinformação é um desafio complexo. Diferenciar verdades e mentiras não é uma tarefa simples, ainda mais em contextos que admitem relativização e espaço para opiniões. Sem prejuízo à problemática em torno do conceito de “fatos”, entendemos que o momento de insegurança faz com que haja uma busca maior por informações confiáveis. Assim, com a presente nota, o IP.rec ressalta a importância do direito fundamental à informação e as atitudes que podem ser tomadas a nível individual em sua defesa, com vistas à promoção de relevância e bem estar no diálogo. Principalmente em tempos de pandemia, precisamos de debates saudáveis para nos mantermos saudáveis também.

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