A expansão de infraestruturas de inteligência artificial (IA) tem levantado um alerta para a comunidade científica: existe um desenvolvimento tecnológico acelerado, sem as salvaguardas legislativas necessárias para reduzir os impactos socioambientais atrelados. Segundo o Data Center Map, há registros de pelo menos 224 centros de dados instalados no país, e o estado do Ceará ocupa a terceira posição em quantidade [1]. No entanto, a projeção é de que o Nordeste deve atrair 30% de investimentos sobre a instalação de novos data centers de hiperescala [2] [3].

Por sua riqueza em fontes de energia renováveis e pela localização geográfica privilegiada, com pontos de conectividade de cabos submarinos de fibra óptica espalhados territorialmente, a região Nordeste foi consolidada como um polo central de data centers. Nesse sentido, o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter) estabelece benefícios fiscais para incentivar projetos de instalação de infraestruturas de IA no Brasil.

Entre os custos socioambientais vinculados à infraestrutura de prestação de serviços da IA, destacam-se 1) consumo de energias não–renováveis; 2) emissões de carbono e gases de efeito estufa; 3) escassez de recursos hídricos; 4) descarte de resíduos eletrônicos; 5) exploração de recursos minerais preciosos; e 6) exposição de comunidades locais e povos tradicionais a contextos de injustiça socioambiental. 

Custos Socioambientais: Nordeste como Zona de Sacrifício

A região Nordeste tem se destacado no cenário da IA, atraindo interesse global para a construção de data centers de hiperescala no território, especialmente devido à disponibilidade de fontes de energia renovável. Entretanto, os custos ambientais e sociais não são questão central no debate de inovação tecnológica, cultivando-se uma estrutura de opacidade ambiental, que visa ocultar os custos associados à infraestrutura da IA, por meio da falta de transparência a respeito das etapas de seu ciclo de vida. 

Nesse contexto, o desenvolvimento tecnológico no Brasil é marcado por desigualdades sociais relevantes. Empresas estrangeiras investem em infraestrutura física de IA no país, enquanto os estados do Nordeste se tornam verdadeiras zonas de sacrifício [4]: populações locais situadas nas proximidades convivem com escassez hídrica, descarte de resíduos tóxicos, bem como riscos associados à poluição do ar por emissão de carbono. Além disso, o consumo excessivo de energia dessas estruturas também gera impactos significativos aos residentes próximos [5]. 

Marcada por secas prolongadas, recorrência de eventos climáticos extremos e por um clima semiárido, a região é suscetível a desastres socioambientais, sendo historicamente vulnerável a cenários de injustiça socioambiental e climática [6]. Nesse sentido, a implementação acelerada de centro de dados, considerando os impactos associados a sua construção e operação, pode intensificar desigualdades preexistentes, aprofundar conflitos locais, bem como impactar o equilíbrio de ecossistemas de forma irreversível [7]. 

Como mencionado anteriormente, o estado do Ceará destaca-se com a terceira maior quantidade de centros de dados, atrás somente de São Paulo e Rio de Janeiro no Brasil. Além daqueles já instalados, o município de Caucaia também é visado internacionalmente para diversos novos projetos, inclusive de instalação do maior data center da América Latina, da ByteDance, empresa dona do Tiktok. No entanto, os moradores locais e líderes de comunidades indígenas próximas manifestaram sua preocupação em face da notícia, tendo em vista que já convivem diariamente com a insegurança hídrica e energética, e a instalação de um centro de dados de hiperescala seria um fator de intensificação desse quadro [8]. 

Dessa forma, a infraestrutura da IA carrega consigo, em todo seu ciclo de vida, ônus ambientais significativos demais para serem desconsiderados. Ainda que as empresas utilizem energias renováveis, sob a promessa de uma neutralidade de carbono, isso não garante que seja uma energia limpa. Afinal, em caso de secas ou escassez de fontes de energia renováveis devido à instabilidade climática no Nordeste do Brasil, os data centers dependem de usinas termelétricas para manter seu funcionamento, que por sua vez utilizam fontes de energia fóssil [9]. 

Redata e Colonialismo digital 

Importante destacar que a presença estratégica de cabos submarinos de fibra óptica, o potencial de energias renováveis e a ausência de regulação ambiental específica para data centers são fatores que atraem investimento estrangeiro para a construção dessas estruturas no Brasil. Somado a isso, os incentivos fiscais oferecidos através do Redata, também contribuem para atrair interesse de grandes empresas. No entanto, o discurso público sobre inovação tecnológica não prioriza as dinâmicas de injustiça socioambiental e climática já existentes no Nordeste, que podem ser profundamente intensificadas pelos impactos vinculados ao ciclo de vida da IA. 

Se por um lado a região sustenta um ônus ambiental significativo, não necessariamente o retorno econômico é proporcional aos impactos negativos. A população local, tanto de comunidades indígenas quanto de outros residentes próximos, suporta os maiores efeitos do grande consumo de energia, água e emissão de carbono, enquanto não se garante um retorno para a economia local. Assim, reforça-se uma estrutura colonialista em que países situados no Sul Global suportam os custos ambientais, visando atender à demanda tecnológica do exterior, que explora nossos recursos naturais e fontes de energia renováveis [10].

Sem propostas efetivas de mitigação aos riscos ambientais atrelados à infraestrutura da IA e garantias de desenvolvimento social e econômico voltados à região, a inovação tecnológica não passa de uma justificativa para mascarar o real objetivo de acumulação de capital por grandes empresas, com valor agregado concentrado em países no exterior e custos ambientais concentrados em nosso território. Assim, uma região historicamente sensível às injustiças socioambientais e desastres ambientais, torna-se um polo tecnológico, sem que se discuta ativamente sobre escassez hídrica e energética, descarte de lixo eletrônico, emissão de carbono e gases de efeito estufa, bem como os ônus às pessoas que habitam os arredores da estrutura. 

Além da Inovação Tecnológica: Caminhos para uma IA sustentável 

Portanto, torna-se necessário pensar em possíveis mecanismos de redução dos custos ambientais vinculados à infraestrutura da IA. Para tanto, utilizaremos as reflexões e sugestões feitas nos textos Towards sustainable AI: a comprehensive framework for Green AI  [11] e Sustainable AI: Environmental Implications, Challenges and Opportunities [12]. 

Por si só, a utilização de fontes de energia renováveis não torna a infraestrutura da IA sustentável. Nota-se que a exploração de energias renováveis pode gerar impactos significativos ao meio ambiente e às comunidades locais, como escassez hídrica, emissão de gases de efeito estufa ou descarte inadequado de lixo eletrônico, submetendo esses indivíduos reiteradamente a contextos de injustiça socioambiental. 

Nesse sentido, os artigos de Tabbakh et al. e Wu et al. trazem propostas para reduzir os impactos atrelados à infraestrutura física da IA, assim elencados:  

  1. Otimização do modelo, reduzindo a quantidade de operações, memória e recursos necessários para funcionamento do modelo. Aqui, podem ser utilizadas técnicas como Model Pruning (Poda de Modelos), ou seja, remoção de componentes redundantes de um modelo, reduzindo seu tamanho e a demanda por poder computacional, e Quantization (Quantização), que envolve a redução da precisão dos números dos parâmetros, resultando em modelos menores, computação mais acelerada e eficiência energética [13]. 
  2. Ampliação da vida útil do hardware, visando reduzir a substituição de equipamentos e o descarte precoce, gerando consequentemente menos lixo eletrônico; 
  3. Utilização de modelos menores (small models), que atendem demandas menores com menos recursos, reduzindo significativamente os impactos ambientais associados aos data centers de larga escala; 
  4. Estabelecimento de critérios de transparência e monitoramento prioritários dos impactos socioambientais atrelados à infraestrutura da IA, com métricas de sustentabilidade ambiental e declarações de impacto. 

Dessa forma, não se pode desassociar os projetos de desenvolvimento tecnológico da região Nordeste do debate referente aos impactos socioambientais resultados da implementação de data centers. Afinal, para um desenvolvimento alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU [14], é fundamental que a expansão da infraestrutura tecnológica priorize às limitações ambientais e à preservação de recursos naturais, garantindo a justiça socioambiental, de forma a evitar a intensificação de desigualdades e vulnerabilidades preexistentes. 

Referências

[1] Data Center Map. Brazil Data Centers. 2026. https://www.datacentermap.com/brazil/. 

[2] VILLARROEL, Rafael. Sob alta demanda, Nordeste avança como polo de data centers. CNN Brasil, São Paulo, 16 out. 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/infra/sob-alta-demanda-nordeste-avanca-como-polo-de-data-centers/ 

[3] O que é um data center em hiperescala? Disponível em: https://www.ibm.com/br-pt/think/topics/hyperscale-data-center

[4] KNOX, Winifred; FERREIRA, José Gomes. Desastre ambiental e zonas de sacrifício: o derramamento de petróleo no Nordeste do Brasil e políticas públicas de Estado. Revista da ANPEGE, v. 18 n. 37, p. 89-105, (2022). https://doi.org/10.5418/ra2022.v18i37.16273 

[5] MARTINS, Laís; CHIAVERINI, Tomás. Moradores se unem para barrar data center do TikTok no Ceará. The Intercept Brasil, 17 set. 2025. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/09/17/moradores-se-mobilizam-contra-data-center-tiktok-ceara/. 

[6] TEIXEIRA, Rylanneive Leonardo Pontes et al. Desastres socioambientais e injustiças climáticas no Nordeste do Brasil. Revista de Desenvolvimento Regional, v. 22 n. 1, jan./mar. (2025). https://doi.org/10.26767/coloquio.222025.3603.

[7] FERNANDES, André Lucas et al. IA, data centers e os impactos ambientais. Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), 2025. Disponível em: https://ip.rec.br/publicacoes/ia-data-centers-e-os-impactos-ambientais/. 

[8] MARTINS, Laís; CHIAVERINI, Tomás. Moradores se unem para barrar data center do TikTok no Ceará. The Intercept Brasil, 17 set. 2025. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/09/17/moradores-se-mobilizam-contra-data-center-tiktok-ceara/.

[9] BROCHADO NETO, D.A., KAZAK, R. Environmental risks of data center infrastructure in Northeastern Brazil from an ecocide risk perspective. Discov Sustain 7, 1472 (2026). DOI: https://doi.org/10.1007/s43621-026-04462-5. 

[10] FAUSTINO, Deivison; LIPPOLD, Walter. Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana. São Paulo: Boitempo, 2023.

[11] Tabbakh, A., Al Amin, L., Islam, M. et al. Towards sustainable AI: a comprehensive framework for Green AI. Discovery Sustainability 5, 408 (2024). https://doi.org/10.1007/s43621-024-00641-4

[12] WU, Carole-Jean et al. Sustainable AI: Environmental Implications, Challenges and Opportunities. Proceedings of the 5th MLSys Conference, Santa Clara, CA, USA, 2022.

[13] Tabbakh, A., Al Amin, L., Islam, M. et al. Towards sustainable AI: a comprehensive framework for Green AI. Discovery Sustainability 5, 408 (2024). https://doi.org/10.1007/s43621-024-00641-4

[14] NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. 

 

Imagem destacada: Gloria Mendoza / https://betterimagesofai.org / https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Fabiana Teixeira

Graduada em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, e pesquisadora nas áreas de Inteligência Artificial, Meio Ambiente e Racismo Algorítmico. Integrante, como pesquisadora, do Laboratório de Justiça, Ambiente, Cidades e Animais da UFF (LAJACA).

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